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A influência da altitude nos vinhos argentinos

Uma das grandes vantagens de Mendoza para a produção de vinhos de alta qualidade é a elevada altitude. Como se sabe, a cada 100 metros de elevação a temperatura cai em média 0,7oC. Em uma cidade onde a tradicional zona de produção está entre os 600 e 1.200 metros de altitude, os degraus climáticos que enólogos e viticultores encontram, formam um interessante mosaico de componentes que se expressam de forma distintas. Estes componentes podem ser engarrafados de forma isolada, o que em uma micro-escala equivale a um vinho feito de uma só parcela do vinhedo; ou podem ser mesclados, seja com diferentes variedades ou a mesma variedade de diferentes vinhedos. Outro fator onde a altitude influencia diretamente nos vinhos de Mendoza é a luminosidade. Como os Andes criam um declive para o leste, altas elevações também implicam em maior luminosidade na parte da manhã e alta incidência de raios UV. Em termos práticos no vinho, significa que tintos terão seus taninos maduros e sedosos, repletos de notas frutadas e sem referências herbáceas, de uvas não maduras. O que, em parte, explica a marcada expressão da Malbec de Mendoza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Todo este pacote somado a um clima semi-desértico com baixa incidência de podridões, e solos com pouca fertilidade e ricos em minerais, cria o excelente cenário de um terroir vinícola. No entanto, como se pode imaginar, não se trata apenas de ir mais alto possível. Na década de 40 um estudo conduzido pelo cientista A. J. Winkler, mapeou cinco níveis de temperatura média ao ano que são propícias para a viticultura de qualidade. Esta escala, hoje conhecida como Winkler, mede o número de dias com temperatura acima de 10oC durante o ciclo de crescimento da videira (exceto período de hibernação anual) e divide as zonas vitivinícolas em cinco níveis. O primeiro, o mais frio, propício para a produção de espumantes e vinhos brancos com maior frescor e o quinto nível, o mais quente, são zonas de clima semi-desértico e Mediterrâneo, que produzem tintos robustos com moderada acidez. 

 

Até pouco tempo, em Mendoza, trabalhava-se apenas em zonas com níveis IV e V desta escala Winkler, zonas de clima quente. Na década de 90, a sub-região de Uco, à sudeste da cidade de Mendoza revelou grande potencial para produzir vinhos com perfil mais elegante, com vinhedos em solo calcário que partem de altitudes de 1.000 metros a incríveis 2.200 metros. Isto permitiu aos mendocinos produzirem vinhos em zonas com níveis II e III Winkler, de clima fresco e até mesmo brancos elegantes entraram no mapa dos produtores. 

A Bodega Trapiche foi uma das primeiras a mirar o potencial de Uco e em 1997 lançou a linha Iscay. O nome que significa “dois" na língua dos nativos quechuas era inicialmente o encontro de duas visões, do enólogo Daniel Pi, da Trapiche, e do consultor francês Michel Rolland. O vinho era uma mescla de 50% de Malbec do vale de Uco com 50% de Merlot de Maipú, onde está a sede da vinícola. Hoje, Daniel Pi permanece como um dos autores do vinho e assina Iscay junto com o viticultor de Trapiche, Marcelo Belmonte, e a linha é composta por um blend de 70% Malbec de Uco e 30% Cabernet Franc de vinhas velhas de Maipú e um segundo rótulo, Iscay Syrah Viognier, é resultado das visões de Pi e o enólogo californiano Joey Tensley, feito com uvas de um vinhedo localizado a 1.250 metros de altitude, no distrito de Los Árboles, no vale de Uco. Os 3% da branca Viognier são co-fermentados com a Syrah, no melhor estilo Côte-Rôtie.

Voltando à escala Winkler, faltava à Argentina apenas encontrar zonas com o nível I, considerado de clima frio. A corrida em direção ao topo dos Andes já não se mostra viável nesta condição, principalmente pelo risco de geadas, neve e difícil acesso à irrigação. A solução, embora pareça contraditória, veio no sentido oposto, “descendo a ladeira". No extremo leste da Argentina, próximo à costa de Mar del Plata, portanto perto do nível do mar, os ventos do Atlântico sul sopram forte e continuamente, o sol já não brilha como no semi-deserto de Mendoza e o índice de chuva é duas vezes e meia mais alta que na região andina. A prática confirma a teoria e no mapa de variedades cultivadas na região, as brancas Sauvignon Blanc e Chardonnay e a tinta Pinot Noir representam mais de 50% da superfície dos vinhedos. Na visão dos iniciados já se percebe que se trata de um clima frio. A recente Indicação Geográfica de Chapadmalal, próximo a Mar del Plata, foi criada em 2014 e hospeda a vinha do projeto Costa y Pampa, de Trapiche. Este primeiro projeto com escala comercial e exportação foi implantado em 2009, a apenas seis quilômetros do mar. O clima frio e úmido, com pouca amplitude térmica, criou desafios inéditos para a equipe da vinícola, que logo entendeu que ali poderiam nascer os vinhos mais elegantes e delicados do país, onde brancos e tintos são marcados pelo frescor e leve nota salina.