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Entrevista Daniel Pi - Enólogo-chefe de Trapiche

Daniel Pi é o diretor de enologia da vinícola Trapiche e um dos profissionais mais respeitados da área na Argentina. Além de visionário e um dos precursores a explorar o potencial das zonas de Uco, aos pés dos Andes, e Chapadmalal, na costa Atlântica do país; Daniel Pi tem como bandeira o cultivo sustentável dos vinhedos e uma enologia de pouca intervenção, tudo para que os vinhos expressem suas origens. Hoje, mais importante que falar das variedades das uvas é fazer com que elas transmitam o lugar onde estão plantadas”, este é o mantra que o enólogo carrega no momento. Conheça um pouco mais sobre esta mente que é uma referência da enologia argentina, nesta conversa exclusiva.

Como foi seu início como enólogo da Trapiche?
Fui contratado pelo grupo Peñaflor em 1992 e em 2002 fui designado chefe de enologia da Trapiche (uma das principais vinícolas do grupo Peñaflor), uma casa fundada em 1883. Foi uma grande responsabilidade. E, na realidade, logo na primeira viagem que fiz pela Trapiche naquele ano foi para visitar o Brasil. Daí pude entender como se trata de um mercado importante para nossos vinhos. 

E naquele momento que entrou na Trapiche sua especialidade era vinificar vinhos brancos. Como foi migrar para esta marca que é uma das maiores exportadoras de Malbec hoje em dia?
Meus primeiros anos de enologia foram dedicados à província de San Juan, onde se produzia muito vinho branco e onde estão alguns dos vinhedos históricos da Trapiche. No fim dos anos 1990 houve uma mudança cultural na Argentina e passamos do vinho branco ao tinto. Nos primeiros anos da década de 2000 tivemos o boom da Malbec. Claro que tínhamos a expertise de trabalhar com grande precisão para fazer brancos e isso foi aproveitado para explorar o potencial da Malbec. Esta minúcia vai desde a escolha do momento da colheita da uva, os pontos de extração das cascas, manejo da maceração, momento de prensagem e os equilíbrios necessários para cada linha de vinho.

Quais as principais mudanças que você implementou para um desenvolvimento tão rápido da marca e qualidade dos vinhos? 
No momento que cheguei na Trapiche, reunimos a equipe técnica e nos colocamos o desafio de focar em qualidade, sobretudo com uma visão do mercado. Isto significa que todos deveriam saber as tendências no mundo do vinho e como poderíamos adaptar nossos vinhos para esta direção. E os resultados surgiram logo em 2003, quando começamos com a linha Terroir Series. O colunista da Wine Spectator comentou que estávamos dando um giro de 180 graus a todo vapor e deixando de lado a imagem de vinhos massivos para produtos de alta qualidade. Nos últimos três anos somos a bodega mais premiada da Argentina e estamos entre as 50 vinícolas mais admiradas no mundo. 

E hoje a questão das microrregiões estão em alta, este é um caminho sem volta, cada vez teremos zonas mais específicas, como Gualtallary, Los Árboles, Paraje Altamira, que estão todas dentro do vale de Uco?
Hoje olhamos a Argentina e quando falamos de vinhos das gamas mais altas olhamos para as distintas indicações geográficas que estão surgindo. Todas estas zonas citadas possuem um “selo”, características que marcam os vinhos nascidos em cada uma, que não são melhores ou piores, mas sim diferentes. Isto ajuda o consumidor a entender os vinhos segundo o seu gosto. Os solos destas zonas de Uco, por exemplo, são em grande parte de origem aluvial (originado por depósitos do leito de um rio), alguns são mais antigos como Gualtallary e Altamira, outros de formação mais jovens como Los Árboles, e cada uma aporta notas distintas ao vinho. Como em qualquer região nobre do mundo, tratamos de expressar o lugar, algo irrepetível. A Malbec pode ser cultivada em muitas partes do mundo, já a combinação da uva, com o solo e clima, forma de cultivo e atividade do homem, não se pode replicar; este é o conceito de terroir.

Qual a importância das vinhas velhas para fazer vinhos de qualidade? Uma região “jovem” como Uco ainda pode mostrar novidades em função da idade dos vinhedos? 
Em Uco, em especial em San Carlos e La Consulta, existem algumas vinhas velhas com mais de 70 anos e onde nascem alguns de nossos vinhos como o Finca Coletto. Estas videiras possuem um melhor e natural equilíbrio entre a quantidade de folhas, frutos e raízes, o que se manifesta no vinho. As vinhas velhas são mais fáceis de manejar, entregam pouca quantidade de uva, mas com altíssima qualidade. As vinhas jovens também podem entregar alto padrão mas é necessário “educá-las”, isto é, temos que controlar os rendimentos e ter atenção à poda. Estou convencido que a viticultura está em um nível tão avançado como ciência e compreensão da fisiologia da uva, que podemos entregar alta qualidade mesmo com videiras jovens; claro, desde que estejam plantadas no lugar certo e com manejo correto.  

Sempre que conversamos com outros enólogos da Argentina seu nome surge com adjetivos de admiração e respeito. Como construir esta reputação com os concorrentes?
Sobre estes comentários acredito que há um respeito mútuo entre os enólogos e como estou a mais de 35 anos neste ofício, creio que daí vem a admiração. É certo que somos generosos quando se trata do intercâmbio de informações com nossos colegas. Assim todo o setor cresce e evitamos repetir os erros que alguém tenha cometido. Isto faz com que toda a indústria se desenvolva de forma mais rápida. Há um consenso que o conhecimento deve ser colaborativo e isto une esta geração de enólogos argentinos e explica o rápido crescimento do nosso setor. 

O quanto é importante a questão da sustentabilidade na produção dos vinhos?
Na Trapiche trabalhamos com certificação de sustentabilidade e algumas parcelas de vinhedos com cultivo orgânico. O vinhedo que está na frente da sede da vinícola é biodinâmico (práticas derivadas da antroposofia). Desta parcela fazemos alguns vinhos experimentais e observamos quais práticas desta forma de cultivo podemos propagar nos mais de 1.100 hectares de vinhedos que possuímos em Mendoza. Acredito que no futuro a questão da sustentabilidade será ainda mais forte, tanto nas questões do campo quanto na parte enológica, com consumo responsável de água, de energia elétrica e para evitar contaminações ambientais com resíduos da vinícola. No geral, o desafio é fazer com que nossa atividade tenha o menor impacto possível no meio ambiente. Já trabalhamos com esta filosofia há mais de 10 anos. 

Como surgiu a ideia de plantar um vinhedo na costa argentina, em condições completamente distintas da montanha e deserto de Mendoza?
Eu e Marcelo Belmonte, nosso chefe de viticultura, temos um amigo em comum e passamos nossas férias em sua casa de praia, cerca de 400 quilômetros ao sul de Buenos Aires, em Chapadmalal. Isto foi no verão de 2008 e andamos pela estância, cerca de cinco quilômetros do mar e surgiu do nada a ideia de plantar um vinhedo nesta propriedade, com variedades com ciclo curto de amadurecimento, devido ao frio e as chuvas. Ali não havia a possibilidade de irrigação e os solos são de origem diversa de Mendoza. Foi um grande desafio e uma grata surpresa, com vinhos elegantes e com vocação gastronômica, onde se destacam a Sauvignon Blanc, Chardonnay e Albariño. Temos 25 hectares hoje e vamos expandir esta área em breve. Uma nova aposta é a variedade grega Assyrtiko. 


Existem outra zonas na Argentina que também podem ser gratas descobertas, como foi Chapadmalal? 
Estamos indo cada vez mais para oeste, para as partes mais elevadas da Cordilheira dos Andes. Alguns setores, como Barreal, estão à 1.600 metros de altitude. Ali nossos vinhos possuem uma concentração única e grande personalidade. Os únicos problemas são o acesso limitado à água, pois são regiões praticamente desertas, e a escassa mão de obra qualificada. Na parte Costeira ainda somos uns dos poucos a produzir vinhos em escala comercial, mas começam a surgir zonas um pouco mais no interior da província de Buenos Aires. 

Um dos motivos do sucesso da Trapiche é a boa sinergia entre viticultura e enologia? 
A sinergia entre viticultura e enologia é fundamental. Hoje não se fala mais de winemaker, mas sim de winegrower, pois o vinho nasce na videira e é um processo contínuo e fluido. Eu e Marcelo Belmonte trabalhamos lado a lado durante todo o ano, em todas as etapas do ciclo da videira; os parâmetros que me entrega das uvas são interpretados para que cada parcela seja direcionada para uma linha de vinho. 

Qual a importância dos consultores internacionais na vinícola?
Já trabalhamos com Michel Rolland e hoje temos ao nosso lado o italiano Alberto Antonini e uma Master of Wine sueca. Isto nos ajuda a ficar de olho nas tendências mundiais. É importante ter a visão de alguém de fora da empresa. Trabalhamos de uma forma mais filosófica, para interpretar as informações que nos trazem e ver onde e como podemos aplicá-las. No fundo é uma forma de melhorar a qualidade sem perder a identidade da Trapiche.