A diversidade dos vinhos argentinos

A grande pergunta que qualquer aficcionado de vinhos faz quando se fala da Argentina é o que virá depois da Malbec. E a resposta que se ouve da boca de muitos enólogos é “mais Malbec!”.

Embora pareça um contra-senso, a realidade é que as diferentes feições que a casta pode manifestar, começou há pouco ser explorada. Reconhecidamente bem adaptada às condições andinas, a Malbec além de expressar diferenças entre as macrorregiões como Patagonia, Mendoza e Salta, tem mostrado capacidade de reagir às oscilações mais sutis de terroir. Como se aplicássemos um zoom no cenário e hoje, um mesmo vinhedo, antes tratado de forma unitária, passa a ser dividido em diferentes parcelas, não necessariamente quadradas, que recebem tratamento distinto ao longo de todo o ano e depois, na vinificação, cada lote segue caminho próprio e separado. A tecnologia neste ponto cumpre um importante papel. Seja no mapeamento de microclimas, que pode separar uma parcela de vinhedo com grande risco de ser completamente destruída por um granizo, de outra parcela, há apenas 100 metros de distância  que pode dar origem a um vinho incrível; seja no perfil do solo de cada lugar. Este é o conceito e estudo por trás do mapeamento de terroir feito na Borgonha. Séculos de observação e estudo concluíram que, apesar de existir apenas uma pequena viela que separa os vinhedos de Richebourg, Romanée Saint-Vivant e Romanée-Conti, este último pode custar de quatro a cinco vezes mais que o primeiro, e das mãos do mesmo produtor (o reputado D.R.C. - Domaine de la Romanée-Conti). Claro que a tecnologia e conhecimento podem abreviar este hiato de séculos, e não se trata de alcançar este estratosférico valor, mas a minúcia de trabalho realizado nos vinhedos argentinos alcança a mesma microescala.

Como exemplo, os cerca de 80 quilômetros em linha reta que separam a tradicional zona de Luján de Cuyo da nova e badalada Uco, implicam em clima pouco mais quente na primeira. O solo com maior teor de argila e cascalhos dá uma feição mais madura e redonda à Malbec de Luján, enquanto em Uco, com clima mais frio e solos ricos em calcário, a Malbec é floral, com mais extremos de acidez e tanino.

A vinícola Trapiche, em sua linha Terroir Series ilustra este conceito com a Malbec da Finca Ambrosia. De uma única parcela de vinhedo localizado em Gualtallary, subrregião do Vale de Uco, próximo dos 1.300 metros de altitude, são lançadas apenas 20.000 garrafas deste 100% Malbec, fermentado espontaneamente (sem inocular leveduras) em tanques de concreto. Isto é o máximo do cuidado enológico para manter a expressão natural deste vinhedo, marcado pelo solo rico em calcário que, além dos taninos sedosos, ajuda na expressão mineral do vinho. 

No entanto, nem só de Malbec vive a Argentina. Com o entendimento do impacto dado pela altitude, manejo da videira e pelo perfil do solo, enólogos e viticultores mendocinos começaram a encontrar zonas de excelência para outras variedades. O caminho natural é observar as zonas de origem da Malbec. Embora conhecida pelos vinhos de Cahors, no sudoeste da França, a Malbec foi largamente cultivada em Bordeaux antes do ataque da filoxera, em meados do século XIX. Então apostar nas outras variedades bordalesas (Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Petit Verdot) seria um caminho coerente e tem funcionado. O “boom" da vez tem sido a Cabernet Franc, ancestral da Cabernet Sauvignon e conhecida por ser temperamental no campo, muito sensível à podridões. Em Mendoza, em condições semi-desérticas, este risco é diminuído e em solos ricos em carbonato de cálcio (calcário), que ajudam a administrar a dose certa de água e nutrientes para as videiras, a Cabernet Franc tem mostrado enorme potencial. A bem conhecida Cabernet Sauvignon é mais versátil e sua trajetória mostra que seus taninos são bem domados nas condições secas de Mendoza. A Merlot e a Petit Verdot são os dois extremos das castas bordalesas. A Merlot, que amadurece cedo e não tolera excesso de calor, encontrou porto seguro em condições bastante específicas, com videiras velhas, onde o sistema de raízes profundo consegue neutralizar os efeitos do calor da superfície e com maior proteção das folhas sobre os cachos das uvas, para que o sol não desidrate os grãos e “cozinhe" seus aromas. A Petit Verdot, por outro lado, tem um longo ciclo de amadurecimento. No entanto este deve ser equilibrado de tal forma que seus duros taninos amadureçam mas sem que seus cachos desidratem e queimem. Novamente, a grande amplitude térmica de zonas frias, como Uco, permite que este ciclo se prolongue de forma adequada. Em termos práticos, toda esta teoria vitivinícola pode ser encontrada no Trapiche Medalla Blend. A linha criada em 1983 em função do centenário da vinícola explora seus vinhedos com cerca de 45 anos de idade para produzir este corte bordalês com 70% Cabernet Sauvignon, 15% Malbec, 10% Merlot e 5% Cabernet Franc.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando se fala de vinhos brancos, as condições de terroir são ainda mais específicas. A luminosidade e o calor que marcam Mendoza, em princípio, não são tão propícios para a produção de vinhos brancos, que buscam frescor e delicadeza. Até pouco tempo, o caminho era único: buscar altitudes ainda mais elevadas; o que esbarra na limitação das zonas de geadas aos pés da Cordilheira dos Andes. Este paradigma também depende do acesso à irrigação nestas zonas remotas e a correta condução do vinhedo, protegendo os cachos das uvas da luz direta do sol. É um caminho que comprovadamente funcionou com Chardonnay e Sauvignon Blanc. Mais recentemente, a busca de zonas costeiras, ao sul de Buenos Aires, revelaram-se grandes e positivas surpresas. Os ventos do Atlântico sopram de forma constante e modulam o clima, mantendo-o fresco. A menor luminosidade e maior índice de chuvas, dispensam a irrigação e não queimam as peles das uvas, mantendo sua expressão varietal. A acidez retida nas uvas é suficiente para a produção de vinhos frescos e elegantes e até espumantes, com o detalhe de receberem uma leve nota salina trazida pela proximidade do mar. Esta rara expressão pode ser provada na linha Costa y Pampa de Trapiche. As brancas Sauvignon Blanc e Chardonnay e a tinta Pinot Noir são vinificadas pelo competente e premiado enólogo Daniel Pi, que tem como filosofia intervir o mínimo possível nas expressões de cada varietal e terroir.

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